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a memória que sorri

Há pessoas que parecem nascer com uma bondade natural, como se lhes tivesse sido oferecida de raiz, sem esforço, sem fingimento e o meu tio era assim. Um homem bom, daqueles que deixam marca não por grandes feitos públicos, mas pela forma simples e constante como tocavam quem os rodeava.


Os últimos anos foram de luta e resistência, falei aqui e aqui sobre isso, e ele bem que se esforçava por andar por cá, mas os últimos tempos já foram de algum sacrifício e sofrimento e, isso, ninguém merece.


Foi um trabalhador quase até ao final da sua vida, não deixou faltar nada à sua família e a empresa que criou, que conta já com mais de 45 anos, é dos seus grandes feitos.


Na sua despedida, a cidade esteve presente em peso.
Não foi novidade, era na verdade expectável tal adesão, ele era reconhecido por várias pessoas, era querido por muitos amigos, família, funcionários e conhecidos de uma vida inteira.
Quem o conheceu sabe que a sua presença era sempre tranquila, pacata, onde havia desavença, ele era a Suíça: neutro, equilibrado, a procurar manter a calma.


Mas não se enganem, o seu sossego não significava silêncio; não, ele era muito bem disposto, tinha sempre a piada certa na ponta da língua, pronta a arrancar gargalhadas nos almoços de família. Era o animador natural da mesa, aquele que nos lembrava que a vida, mesmo dura, pode ser leve se tivermos com quem rir.


Trabalhou muito, sim, mas também soube viver: viajou, aproveitou a vida, nunca sozinho, sempre rodeado da sua família, onde estava a sua verdadeira riqueza, e lutou quando a vida lhe apresentou a doença, aguentou como um guerreiro, mas o final foi duro, sofrido, pesado para todos.

Ainda assim, quero guardar a imagem dele sorridente e com a sua boa disposição, quero recordar o tio que foi abrigo, ânimo e exemplo.
Deixa saudade em todos, uma saudade que não se mede mas também deixa um legado: a prova de que vale a pena ser bom. Só isso. Bom e genuíno.


Até já, tio.

Porque as pessoas verdadeiramente boas não se vão nunca — ficam em nós, no riso, nas memórias, na vida que continua.

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